Não se pode menosprezar a audaciosa história de Portugal e do legado deixado pelos filhos dessa terra. Sendo uma das primeiras nações europeias a dar adeus ao feudalismo e se constituir como estado nacional, era a mais projetada geograficamente em direção ao oceano e propensa a desbravá-lo. A Escola de Sagres, com seus estudiosos, vários deles judeus, havia desenvolvido tecnologias que impulsionavam a navegação ultramarina, ou seja, partir rumo ao longínquo desconhecido. 

Havia também uma expectativa profética e messiânica. Séculos antes, as antigas profecias de Joaquim de Fiore anteviam a chegada da “Era do Espírito” e a descoberta de uma nova terra. Mais tarde, João de Castro e Padre Vieira concluíram, a partir de Daniel 2, que Portugal deveria ser o quinto império, político e religioso (católico), após Babilônia, Pérsia, Grécia e Roma! Por sua vez, a eterna sombra da Espanha motivava os portugueses a não esperar para ver. E a competição com outras nações, como a Holanda e a França, os estimulava a não desistir, ainda que estivessem em desvantagem. Atravessar oceanos rumo à América, ou ao redor do mundo como Vasco da Gama fez, eram façanhas tão grandes quanto chegar à Lua. 

Sem desconsiderar todos os abusos horrendos cometidos ao longo da história de colonização, Portugal conseguiu fincar sua bandeira e sua influência ao redor do mundo. Estabeleceu colônias na costa da África, na recém-descoberta América e na Ásia. A distância e o tempo quebraram os laços coloniais, mas permaneceram a língua e aspectos da cultura que ainda conectam os falantes do português. Mesmo onde não se fala essa língua, há vestígios. No Japão, por exemplo, as palavras para vidro e pão vêm do português (pan biidoro). Porém, foi no Brasil que inteligentemente conseguiram cobrir um espaço continental e estabelecer sua língua como uma referência mundial. 

O português e o Brasil 

Atualmente, a língua portuguesa é uma das mais faladas do mundo, com mais de 290 milhões de falantes. É o idioma oficial de Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. É a língua mais falada no hemisfério sul. No contexto adventista, é uma das línguas mais faladas, após o inglês e o espanhol. O Brasil, por concentrar a maioria absoluta de falantes do português, bem como por sua extensão territorial e dimensão econômica, acaba se tornando um polo desse idioma tanto na igreja como no mundo. 

No adventismo, o Brasil detém a primeira moeda em importância após o dólar. Isso não se dá só pelo peso do real (a moeda brasileira) em si, mas pela quantidade de membros (1,8 milhão), que juntos impactam a maior parte do orçamento da Divisão Sul-Americana (DSA) e, consequentemente, pesa no orçamento da igreja mundial. Poucos anos antes da Assembleia Geral de 2015, por causa da valorização do real, a DSA despontava para se tornar a Divisão de maior contribuição financeira, em dólares, no mundo. Contudo, a onda de desvalorização do real, sentida especialmente a partir de 2012, derrubou essa tendência. Ainda assim, as doações nessa moeda têm um impacto significativo no orçamento global da igreja.

Ao lado da questão financeira, o desenvolvimento institucional da igreja no Brasil é um fator preponderante de projeção de sua influência. Para começar, seu número total de membros (cerca de 1,8 milhão) e o desenvolvimento do sistema mais avançado de secretaria da igreja, que é utilizado no mundo, bem como iniciativas de atualização dos registros têm conquistado respeito de líderes de outros países. A criação do Instituto Adventista de Tecnologia, o IATec, foi uma das iniciativas mais ousadas, oportunas e bem-sucedidas da igreja.  

Sem dúvida, o crescimento e a integração denominacional foram umas das principais marcas da gestão do pastor Erton Köhler enquanto esteve à frente da DSA nos anos de 2008 a 2021. Sob sua atenção e presença frequentes nos eventos e mesas administrativas, a excelência institucional da igreja se expandiu em todas as frentes: eclesiástica, tecnológica, editorial e gráfica, hospitalar e de comunicação de massa (rádio, TV e internet). 

Isso contribuiu ainda mais para que o Brasil se tornasse a caixa de ressonância e o polo do adventismo que fala português no mundo. Tornou-se referência em vários campos, exportando ideias a outras regiões, assim como a cultura adventista em projetos, vídeos, músicas, livros e lideranças. Sem dúvida, esses elementos foram decisivos para a escolha de brasileiros para a liderança da igreja mundial, entre eles, o próprio pastor Erton, como secretário executivo.

O desafio do inglês

A ascendência dessa liderança mundial que fala português e é brasileira representa uma enorme responsabilidade e novos desafios. Em primeiro lugar, é preciso vencer a barreira da língua. Como o Brasil é um país continental (maior do que os Estados Unidos, descontando o Alasca), a maioria de seus habitantes têm pouca interação com falantes de outras línguas. Assim, o aprendizado tardio do português se torna uma séria barreira para o compartilhamento de ideias com o mundo. Um dos casos mais destacados se vê na área acadêmica: os conteúdos tão elogiados por falantes de inglês em simpósios internacionais poderiam ser mais impacto se fossem publicados em inglês. 

Mais do que o texto escrito, a língua falada requer não somente o domínio da gramática, mas uma atenção à pronúncia, para pelo menos se fazer compreensível. Por exemplo, ao querer dizer “humano”, muitos brasileiros falam “rúman”, uma pronúncia que pode ser confundida com woman, “mulher”, deixando os ouvintes confusos. O certo seria pronunciar algo como “ríuman”. Pequenos detalhes fazem muita diferença.

Participação parlamentar 

A falta de domínio da língua também se faz sentir no nível parlamentar da igreja, especialmente nas assembleias. Poucos brasileiros e sul-americanos se dirigem aos microfones, e isso está em profundo contraste com o que eles têm para oferecer. “Afinal, se fazem tantas coisas interessantes e boas, por que não falam?” – alguém poderia dizer. Esse vácuo tem sido notado, e colegas da igreja mundial afirmam constantemente que gostariam de ver os sul-americanos mais envolvidos nos debates. A África tem despontado nesse campo. 

Talvez, a participação possa ser incentivada com mais abertura para o diálogo no nível ministerial, possibilitando a troca de ideias e oportunidades para a interação. Até mesmo algum ensino poderia ser ministrado sobre a participação parlamentar.  Isso poderia contribuir para que os delegados sul-americanos, sobretudo os pastores brasileiros, entendessem a importância de sua participação e compartilhamento de perspectivas de modo livre, polido, claro e responsável. Isso seria belo e enriquecedor para todos. 

Liderança equilibrada

Outro desafio está na tensão vertical-horizontal no campo da liderança. A tradição federalista (no campo político) e congregacionalista (na religião) americana possibilita uma liberdade tão desejável quanto, por vezes, disfuncional. Isso se vê no campo político, em que os Estados Unidos são como um ônibus em que todos os passageiros têm um pedal de freio. Simplesmente o ônibus não anda! A desconfiança do governo é entranhada na cultura popular. Assim, há uma tendência cultural à atomização da igreja, desintegração institucional, pulverização de esforços, falta de foco no uso de recursos e a proliferação de ministérios de apoio e ministérios independentes/críticos. 

Assim, sem dúvida é preciso “pôr a bola no chão”. Ou seja, encontrar uma forma de chegar a uma concertação, de fazer os instrumentos serem tocados em harmonia, e não cada um do seu jeito, produzindo algum barulho e nada de música. Porém, do ponto de vista estadunidense e europeu, a visão sul-americana pode parecer vertical demais, top-down, “de cima para baixo”, sem muito espaço para liberdade e variação.  

Assim, a integração e o desenvolvimento da liderança mundial é algo delicado, que só pode ter sucesso se houver extrema sabedoria, humildade, respeito mútuo, diálogo e, acima de tudo, dependência de Deus. Qualquer tentativa insensível, precipitada ou impositiva pode gerar forte resistência e levar à perda de oportunidades. Tempo também é necessário. Se Jesus estiver à frente, as diferentes escolas de liderança terão algo a aprender umas com as outras e crescerão juntas.

A igreja de fala portuguesa, especialmente do Brasil, tem muito a contribuir para a igreja mundial e igualmente aprender. Seja na visão estratégica, seja no desenvolvimento institucional ou no fervor missionário, Deus nos chama a servir. Se Ele concedeu bênçãos a este movimento, isso também não significa que devamos assumir uma posição de autossuficiência ou de indiferença em relação ao mundo. Precisamos nos dispor a servir, a atuar onde a igreja mais necessita. Como igreja, também precisamos orar e apoiar nossos líderes, contribuindo da melhor forma em nosso raio de influência. 

Que o Espírito Santo guie os próximos passos desta igreja diversificada e as histórias inspiradoras que ouviremos na próxima Assembleia Geral.

“Bom dia, Diogo, como está sua jornada? Já estou no Brasil. Não consegui abrir o livro... tem alguma dica?” – foi a mensagem que recebi ontem à noite de Carlos*. Eu o conheci no voo para os Estados Unidos. Ele é engenheiro de mecatrônica e trabalha com equipamentos médicos de última geração. É professor de uma especialização em sua área e, nas horas vagas, desmonta, reforma e monta perfeitamente motos belas e brutas, adaptadas para motocross. Eu vi as fotos: são incríveis! E isso é só um de seus passatempos.

Mansamente, ele me contou que decidiu, em suas palavras, “fazer uma loucura”, e disputar o campeonato estadual de motocross. Como novato na área, alcançou nada menos do que o terceiro lugar. Além de todas as realizações, nas horas vagas, Carlos ainda constrói coisas em sua marcenaria particular, uma delas, peças para um belíssimo chalé de madeira de dois andares que levantou no sítio de sua família, lado a lado com seu pai. Sua família parece muito feliz. 

Esses fatos foram surgindo naturalmente na conversa com esse homem de sucesso, e não de uma tentativa dele de me impressionar. Em nenhum momento ele me pareceu autoafirmativo ou soberbo, o que ressaltou seu bom caráter, na minha percepção. Conversamos também sobre o mundo editorial e cibersegurança para hospitais. Suas ideias refinadas e serenidade me diziam que ele – mais ou menos da minha idade – era alguém acima do comum. 

Decolamos por volta das 11h da noite, e a conversa rendeu. Quando falamos o suficiente sobre nossos trabalhos, ele disse que ainda tinha o sonho de escrever um livro e me pediu dicas. Era parte de seu plano completar sua lista de realizações na vida. Pude falar alguma coisa para ele, mas então creio que o Espírito Santo me deu uma ideia para elevar o nível da conversa. Já tínhamos criado algum vínculo, e senti que tinha abertura para perguntar-lhe:

— Carlos, e depois?

— E depois quando? – ele respondeu.

— Depois de tudo, desta vida, o que vai ser?

— Não sei, não penso muito nisso. O que seria? – devolveu de modo tranquilo, mas pensativo.

Seu tom de voz e expressão indicavam sério interesse. Ele queria ouvir mais. Assim, comecei a falar sobre o milagre da vida, de nossa origem planejada e da condição humana segundo a Bíblia. Em alguns momentos eu parava de falar, mas ele indicava que queria ouvir mais. Prossegui falando de Jesus, o que Ele fez, faz e fará. Foram momentos muito especiais. Em certos pontos, ele fazia perguntas, e eu procurava respondê-las. Estava escuro no avião. Uma delegação de atletas americanas estava ao nosso redor, e talvez não estivessem empolgadas com a nossa conversa, mas procurávamos respeitá-las, falando baixo. 

O diálogo, com várias perguntas da parte dele, seguiu até as 2h30 da manhã, e concluímos que precisávamos parar. Continuamos no café da manhã no avião, e prometi para ele que enviaria um livro que escrevi (A Maior Esperança, o livro missionário de 2020). Foi esse livro que ele me pediu para reenviar o PDF ontem, em meio aos afazeres aqui em Saint Louis, o que fiz pouco antes de começar a escrever este artigo. 

Essa é uma história singela, mas poderosa. Ela me faz pensar como a grandeza do reino de Deus é feita de pequenos gestos, conversas simples e oportunidades inesperadas. É como uma pequena fonte de água que, junto a outras pequenas fontes e riachos, se transforma em um rio caudaloso. São como os pequenos tijolos vermelhos que formam as paredes do America’s Center, onde nos reunimos aqui na Assembleia Geral. São pequenos, são de barro, mas a junção de milhares deles produz a imponente “arquitetura federal”, como é conhecida tradicionalmente nos Estados Unidos.

Nossa imensa arquitetura como igreja também é feita de pequenos tijolos, de pessoas como eu e você. As maiores instituições, como a universidade/hospital de Loma Linda e seus mais de 17 mil funcionários, também são feitas de pessoas. A grande saga do povo de Deus sempre foi feita de pequenas histórias individuais. É por meio de nossas experiências individuais que o evangelho é encarnado e compartilhado no dia a dia. É a soma de pequenas conversas sobre o Salvador que formam imensos rios de fé, como vemos na Assembleia Geral.

Na Assembleia, nos sentamos com pessoas de mais de 80 países. Nas mesas do almoço e em outros ambientes, converso com pessoas de lugares tão diversos como Samoa, Fiji, Madagascar, França, Coreia, Filipinas, México, Índia, Alemanha, de ilhas do Caribe, Ucrânia, Estados Unidos, Espanha, Argentina e de tantos outros lugares. Todos dizem que sentem um “gostinho do Céu”. Porém, todos só estamos aqui porque um dia alguém superou os receios e compartilhou sua fé. 

Foi o caso dos ciclistas australianos, entre eles o presidente da Divisão, de uma União e de uma Associação, que saíram de Washington e viajaram mais de 2 mil quilômetros até Saint Louis. Eles passaram por pequenas cidades e vilas, distribuindo livros e oferecendo orações. Foi tocante ouvir que alguns deles fizeram isso pela primeira vez na vida e se sentiam tão felizes! Um desses ciclistas, o pastor Anthony Kent, disse que uma única visita de alguém ao seu tataravô, levando o livro O Grande Conflito, resultou em uma longa geração de pastores e mais de 30 mil pessoas convertidas por meio de sua família. 

Isso me faz pensar que os maiores desafios da igreja não são coletivos, mas individuais. Precisamos olhar a igreja não como uma massa indefinida, um exército uniformizado, mas como pessoas individuais e seus diferentes contextos. Precisamos tomar tempo para olhá-las nos olhos e dar nosso testemunho pessoal. Foi assim desde o primeiro que disse “vem e vê” (Jo 1:46). Cristo deixava multidões de lado para dar atenção a uma só pessoa. Nesses momentos, o evangelho era exposto e aceito de maneira mais detalhada e consciente, beneficiando o mundo! O Pão da Vida Se multiplica sempre que é dividido.

O milagre da graça em mim se repete na vida de quem eu tenho o privilégio de abençoar com o evangelho. As pequenas sementes plantadas, os pequenos riachos que se somam, os humildes bocados do evangelho que compartilhamos formam o magnificente reino de que Ele trouxe ao mundo. Esse é o reino que celebramos na Assembleia Geral e pelo qual aguardamos. Pode parecer pequeno e não tão importante, mas guarda em si um incrível princípio vivificante e multiplicador. 

Assim como a minha, a história de Carlos só começou. 

* Nome fictício para preservar sua identidade.

“A democracia é um jardim que precisa ser cuidado” – muitos têm afirmado há anos. Canteiros não brotam do chão e muito menos caem do céu. As ervas “daninhas”, um recurso natural de proteção do solo, não se afastam apenas com pensamento positivo. Jardins não existem by default, não são algo que já temos garantido desde o início. Dependem de mão de obra humana para existir. Em um mundo perfeito, Deus plantou um jardim para que o ser humano o guardasse (Gn 2:8), pois a manutenção e a expansão do jardim dependeriam de cuidados. Assim também é com o sistema representativo que escolhemos para governar a igreja. Ele pode ser comprometido e precisa ser preservado.

Natureza egoísta

Na selva das paixões, a exaltação do eu é um perigo sempre latente. Nossa natureza pecaminosa funciona sob a lógica do egoísmo, da competitividade nata e do apetite pela supremacia. Isso poderia ser chamado de o “pecado original”, não no sentido de um pecado inerente a nós desde o nascimento, mas em que esse foi o primeiro de todos os pecados. Lúcifer dizia, “subirei... exaltarei... e me assentarei... subirei... e serei...” (Is 14:13, 14). O egocentrismo, como a camada mais rudimentar do pecado, é subjacente a todos os demais, pois busca agradar, exaltar e proteger o eu a qualquer custo, em detrimento das outras pessoas.

A lógica do egoísmo ganha ainda mais relevo nos constantes estímulos ao individualismo na sociedade atual. Especialmente as “eu-tecnologias” (eu-telefone, eu-isso, eu-aquilo) alimentam e levam ao extremo a ideia de customização. São construídas para que se conformem ao gosto do usuário e funcionem como escravas obedientes, mas no fim terminam por escravizar seus senhores. Como nunca, vemos pessoas insones, com sérios problemas emocionais, viciadas em telas, sozinhas, arrumando brigas na internet, perturbando a igreja nas redes sociais, se afastando da família e não querendo construir uma. Como nunca, temos visto milhões tremendo no frio da solidão, sorrindo apenas para os pets, e todo esse espírito afeta a igreja como comunidade.

Política e individualismo

No âmbito do poder político e das relações internacionais, a busca pelo controle total tem sido uma tentação quase irresistível. Se o Congresso não funciona, se a corrupção carcome as finanças e a vida da sociedade, por que não entregar o poder a um líder “forte” que resolva isso? Por que não centralizar o governo nas mãos de um partido predominante? O Big Data, que é o gerenciamento dos metadados, tem sido usado por governos autoritários para controlar como nunca seus cidadãos, tanto em países ricos como nos pobres.

Para quem vê de fora, esses países controladores parecem ter mais força. Parecem avançar com mais assertividade, tomando decisões cruciais de modo mais ágil, o que resulta em vantagem estratégica no cenário global. Numa primeira vista, isso parece tão bom, que são aplaudidos por líderes populistas que sonham replicar o modelo em democracias cambaleantes. Se olharmos para a realidade americana recente, esse quadro soa cada vez mais profético.1

Modelo bíblico

Diante de todos os desafios atuais, nossa igreja foi agraciada com uma forma de governo representativa espelhada na Bíblia. Um dos primeiros atos após a libertação do Egito foi a legitimação do poder dos líderes e anciãos para julgar o povo (Êx 18:21-25; Nm 11:16-30). Desde então e ao longo de toda a história de Israel, eles exerceram controle dos assuntos públicos. No tempo de Samuel, os anciãos pediram um rei, iludidos com a miragem do poder concentrado em um “homem forte”. Abrindo um parêntese, sem querer ser anacrônico, no fascismo, a ideia básica é a da mão que segura o feixe (do latim fasces), a concentração de poderes nas mãos de um superlíder. No tempo de Samuel, os anciãos entregaram o feixe inteiro ao rei, e isso definitivamente não deu certo. Não havia prestação de contas, limitação e equilíbrio de poder. Sobraram abusos.       

Contudo, mesmo no tempo dos reis, os anciãos mantiveram considerável influência silenciosa sobre os destinos da nação. Davi sabia que seus poderes eram limitados pelos anciãos e entendia que não poderia governar sem seu apoio (2Sm 5:1-3). Reis obstinados e desastrosos foram destronados ou quase ficaram falando sozinhos, como Roboão que não atendeu ao pedido sensato dos anciãos das doze tribos de Israel (1Rs 12:16). Decisões ao longo da história sagrada seguiram um modelo parlamentar de apresentação dos temas, deliberações, voto e execução (Jz 20:2). A lógica do ancionato e do modelo parlamentar também foi adotada no Novo Testamento (At 15) e por isso é seguida pelos adventistas.

Tesouro herdado

Entre as lições do passado e os desafios do presente, a Igreja Adventista do Sétimo Dia tem sido protegida por uma arquitetura representativa de líderes. Toda a estrutura organizacional é construída a partir de representantes escolhidos pelos membros. A Comissão de Nomeações, que preencheu mais de 100 cargos nos três primeiros dias da Assembleia Geral em Saint Louis, na verdade é uma construção que vem desde as comissões das igrejas locais. Isso significa que o reconhecimento dos dons e das bênçãos divinas a homens e mulheres produz um efeito “de baixo para cima”, de modo que das igrejas segue para as Associações, e destas, para as Uniões, para as Divisões, culminando na Associação Geral.

A legitimidade representativa, por sua vez, confere solidez e autoridade aos líderes escolhidos, inclusive do ponto de vista jurídico. A partir da eleição, essa autoridade não deve liderar num estilo “líbero”, mas submetida aos regulamentos votados pela mesma assembleia que a escolheu. Assim, a supremacia da lei impede uma supremacia dos homens, como ocorre nas denominações congregacionalistas, nos sistemas episcopais, nas antigas igrejas subservientes ao Estado ou mesmo nas igrejas emergentes. Alguns observadores religiosos de fora dos círculos adventistas enxergam essa bela arquitetura com admiração, pois veem o estrago causado pelas disputas pelo poder ou mesmo a anomia (o descontrole por falta de regulamentos) em suas comunidades.

Cuidando do jardim

Contudo, como adventistas, não devemos alimentar uma lógica triunfalista. As formas não são suficientes para preservar os princípios. No tempo de Jeremias, não adiantava dizer: “Templo do SENHOR! Templo do SENHOR! Este é o templo do SENHOR!” (Jr 7:4). Era preciso se render à mensagem do templo, ter o templo no coração e acima de tudo respeitar o Deus do templo. Como Jesus ensinou, é possível “jeitosamente” rejeitar o preceito de Deus (Mc 7:9, ARA). Assim, mesmo em nosso sistema parlamentar, precisamos, em humildade, refletir e tomar alguns cuidados, para o bem geral da igreja. Alguns deles:

1. Valorizar nosso sistema. Apesar das imperfeições, o sistema representativo é o que existe de melhor em termos de organização, legislação e administração eclesiástica. Ele permite a existência de uma igreja mundial, mais democrática e integrada, ainda que preservando suas particularidades regionais. Também é o melhor sistema para preservar a igreja de abusos, visto que sujeita todas as lideranças a avaliações e eleições periódicas. Portanto, se há algum problema no processo, é preciso cuidar para não condenar o sistema todo por alguma falha localizada em um indivíduo ou situação.

2. Tornar nosso sistema cada vez mais representativo. O grau de representatividade também importa. É preciso que as comissões não sejam compostas apenas por um grupo fechado de pessoas, mas que se tornem cada vez mais inclusivas e abrangentes, envolvendo representantes de toda a igreja ou de todas as lideranças e regiões. Também deve-se respeitar as regras da participação proporcional recomendada de membros não assalariados pela igreja, conforme as regras já estabelecidas sobre esse aspecto. Isso envolve estimular sem quaisquer preconceitos o envolvimento de jovens, mulheres e pessoas de todas as origens, segundo critérios aplicados isonomicamente a qualquer um.

3. Participar de forma consciente do nosso sistema. Em todos os níveis da igreja, da igreja local à Associação Geral, os membros designados para as comissões devem participar de maneira livre e ponderada. Não devem submeter sua consciência aos que têm mais apelo só por sua retórica, nem à maioria só por ser maioria, mas votar de modo maduro e consciente. A apatia manifestada na falta de participação e a participação leviana sonegam informações e perspectivas que poderiam ser úteis antes que decisões sejam tomadas. Entretanto, é essencial que os participantes estudem, conheçam bem as questões em pauta para votarem de maneira segura.  

4. Liderar de modo a fortalecer nosso sistema. Aqueles que presidem comissões têm um papel fundamental para a concretização da representatividade nas comissões da igreja. Sua liderança pode ser de molde a fortalecer ou enfraquecer o sistema, distorcendo seu funcionamento e deslegitimando sua autoridade. Direcionamento excessivo pode constranger a participação e o livre fluxo de ideias e propostas. Embora deva haver deliberações positivas e condução das participações, o líder não deve ir além disso. Não deve haver um objetivo predeterminadamente forçado a acontecer. É errado “mover peças”, manipular. Em qualquer mesa ou comissão, deve deixar espaço para a condução do Espírito Santo e não impor o prevalecimento exclusivo de sua vontade, por mais que lhe pareça correta. Pode exortar, sim, mas não se impor. “Não havendo direção sábia, o povo fracassa; com muitos conselheiros, há segurança” (Pv 11:14, NAA). O bom líder não é só aquele que inspira novos líderes. É também aquele que respeita as instituições e as deixa mais fortes do que quando chegou.

5. Criar sinergia para abençoar nosso sistema. Somos uma denominação abençoada por muitos administradores habilidosos e dotados. Porém, temos também teólogos, professores, pensadores, editores, escritores, estudiosos, jornalistas, líderes de instituições, médicos, advogados, engenheiros, entre tantos outros especialistas. Temos irmãos e irmãs experientes, idosos sábios, crianças, adolescentes e jovens perspicazes. Seus ensinos, estudos, artigos, simpósios, livros, ou mesmo uma simples conversa de coração aberto pode abrir os olhos para pontos cegos. Ouvir é uma das maiores ciências. Permite identificar os problemas, dar-lhes nomes e finalmente superá-los. Não é por ignorá-los que vão deixar de existir. Recorrendo a adágios novamente, se “a democracia morre na escuridão”, ela floresce à luz de bons conselhos.

Cuidar de um jardim não é tão fácil como parece. Exige tempo, dedicação e paciência. Porém, sempre paga com resultados multiplicados. O jardim da representatividade na igreja deve ser preservado e melhorado, e esse papel cabe a cada um de nós. A negligência ou o abuso de um afeta a todos. Igualmente, a participação respeitosa abençoa a todos e fortalece nos membros a certeza de que Deus ainda dirige Sua igreja em um mundo perdidamente egoísta.

1 Ver Diogo Cavalcanti, “À sombra do decreto: Os tempos mudaram, mas Apocalipse 13 não. Entenda o cenário da crise final e realidades atuais que apontam para ela”, Revista Adventista, agosto de 2021, disponível em: https://www.revistaadventista.com.br/diogo-cavalcanti/destaques/a-sombra-do-decreto/, acesso em 9 de junho de 2022.  

Algumas reuniões de trabalho (business sessions) têm sido marcadas por uma bela combinação de vozes. Destacam-se a voz a suave e melodiosa de Ella Simmons, ex-vice-presidente da Associação Geral e presidente (chair) de algumas reuniões de trabalho, acompanhada pela voz grave do parlamentar assistente, Todd McFarland, presente em todas as reuniões. Também não se pode esquecer das intervenções entonadas de Hensley Moorooven, o secretário dos registros, entre outros chairs e secretários.  

Sendo as vozes belas ou não, a habilidade da condução das proposições e debates parlamentares ajuda a resolver impasses quando os delegados se dirigem aos microfones. Isso se refere especialmente às modificações propostas pela Associação Geral dos regulamentos ou regulamentos (bylaws) e do Manual da Igreja. Nesses casos, cada palavra é importante e, algumas, cruciais, abrindo espaço para longos debates, às vezes, quando menos se espera.

Mudanças corriqueiras

Votos são necessários no caso de qualquer alteração dos regulamentos da igreja, conforme registrados no livro Working Policy, o qual tem uma versão sul-americana (em português e espanhol) de mais de 900 páginas, o livro Regulamentos Eclesiástico-Administrativos, atualizado anualmente. Sendo a clareza essencial, até mesmo o reposicionamento de uma palavra ou trecho no parágrafo para manter a ordem alfabética precisa ser votado, como ocorreu. Igualmente, a atualização de termos também se faz necessária. Por exemplo, substituiu-se a expressão telephone conference (“conferência por telefone”) por electronic conference (“conferência por meios eletrônicos”). Embora sejam itens simples, todos os que entram na agenda demandam votos, sem exceção.

Tecnicalidades e inovação

Quando se chega a expressões técnicas, como ocorreu na segunda sessão, iniciada no dia 6 de junho, às 14h, vários delegados foram ao microfone para questionar a substituição de interdivision employees (“empregados interdivisão”) por international service employees (“empregados de serviço internacional”). Os delegados questionavam se a atualização não tornaria o termo impreciso, especialmente no caso de obreiros que trabalham dentro de uma mesma Divisão, mas em outro país. De qualquer forma, a proposta para a alteração foi aprovada pela maioria dos delegados, que votam eletronicamente via aplicativo, seja no Dome (o estádio), seja em suas casas, pelo Zoom.

Foi votada também a permissão para o uso da expressão “serviço batismal” em vez de “cerimônia batismal”. Contudo, nas regiões onde se prefere usar “cerimônia batismal”, o uso permanece livre, visto que é utilizado no Manual da Igreja.

Uma inovação foi a aprovação da participação de comissões da igreja via Zoom. Esse fenômeno ocorreu nas comissões executivas da Associação Geral, e de todos os níveis organizacionais desde o início da pandemia. Porém, o voto dá oficialidade e amparo legal à prática, desde que atenda a um requisito básico: que seja uma reunião em que todos possam interagir uns com os outros ao mesmo tempo. A participação on-line ao vivo constitui oficialmente  presença nesse tipo de reunião.

Ordenação

O tema da ordenação, um ponto alto de San Antonio, voltou à pauta em Saint Louis, mais especificamente, sobre a alteração do termo “diácono(s)” por diaconato, incluindo assim as diaconisas. A mudança na terminologia contribui para manter a consistência no Manual da Igreja. Diversos delegados se levantaram ora para defender a mudança, ora para solicitar sua revogação. Estes últimos, em menor número, argumentavam que a Bíblia não defende o ministério feminino e que biblicamente não há diferença entre a ordenação de pastores, anciãos e diáconos.

Por sua vez, outros delegados afirmavam que essa era uma interpretação particular do texto e que o ministério feminino já é uma realidade há décadas em muitos países. Algumas delegadas também afirmaram que negar a ordenação às diaconisas representaria uma deslegitimização da obra que elas já realizam.    

Ao fim dessa rodada que se prolongou por quase uma hora, prevaleceu a noção de que a igreja já havia avançado na direção da ordenação de anciãs muito tempo atrás. De fato, após alguns estudos foi votada já em 1975 (voto GCC 75-153) a participação e ordenação de mulheres no ancionato na Divisão Norte-Americana. Em 1984, um voto da Associação Geral confirmou o voto de 1975 e ampliou a autorização para as demais Divisões, o qual foi registrado por meio de voto pela Divisão Sul-Americana. Em 1995, as Divisões foram chamadas a consultar as Uniões sobre o tema, o que não foi implementado de forma geral.1

Em resultado, negar a ordenação às diaconisas por alguma razão teológica significaria renegar os votos e procedimentos adotados pela igreja nas últimas décadas. A lógica da aprovação não foi meramente manter coerência com as práticas, mas a falta de uma compreensão bíblica suficientemente convincente para negar a jurisprudência (todos os votos anteriores). Assim, após várias participações ao microfone, finalmente foi proposta a mudança da linguagem no Manual.

Com uma voz bela ou nem tanto assim, com um inglês fluente ou acidentado, porém com mansidão, acuidade lógica e firmeza, os chairs do primeiro dia de reuniões precisaram ouvir as observações que vinham do “chão”, como se diz em inglês, ou seja, dos delegados. Atenderam aos questionamentos sobre o processo em si (points of order), demandaram propostas e abriam o momento de votação. Embora não se possa alcançar 100% de consenso, após muitas discussões e esclarecimentos, a compreensão amadurecia, e os votos só eram adotados com uma maioria expressiva (maior que 75%).

O que resultou foi uma legitimação ainda maior da participação feminina no ministério adventista. Elas podem ser diaconisas e anciãs ordenadas. Ao redor do mundo, especialmente no Norte global, mulheres têm atuado como pastoras. Essa é uma realidade nos Estados Unidos e em países europeus. É realidade também em Portugal. A adesão recente (desde novembro de 2021) da Divisão Sul-Americana à ordenação de anciãs após os estudos de uma comissão específica, reforça essa tendência mundial. 73% das Divisões já adotavam essa prática, a qual alargou suas fronteiras em Saint Louis.

1 Felipe Lemos, “Igreja vota documento para fortalecer ancionato”, 8 de julho de 2021, Igreja Adventista do Sétimo Dia, disponível em,   https://noticias.adventistas.org/pt/noticia/institucional/igreja-vota-documento-para-fortalecer-ancionato/, acesso em 8 de junho de 2022.

Alguns dos desdobramentos mais determinantes de toda a Assembleia ocorreram nos dois primeiros dias, como de costume. O trio administrativo – pastores Ted Wilson, Erton Köhler e o tesoureiro Paul Douglas – seguem nas funções de presidente, secretário executivo e tesoureiro da Associação Geral até 2025. A permanência do pastor Wilson sinaliza uma “aposta no resgate do adventismo autêntico e profético”, com sua ênfase no “envolvimento total dos membros”, como já vinha fazendo.1 Por sua vez, a confirmação da Assembleia do secretário e do tesoureiro esboça novas possibilidades.

Intencionalidade

Conhecido por sua ênfase na integração de ministérios, o pastor Erton Köhler apresentou na manhã do dia 7 de junho um relatório com forte ênfase em missão. Em vez de aparições isoladas e pontuais em janelas da agenda da Assembleia, viu-se uma concertação dinâmica e sincronizada de diferentes líderes apresentados em ligação com a Secretaria. Assim, em um só bloco, falou-se da parte dos Adventist Archives, do Adventist Volunteer Service e da plataforma VividFaith, entre outros ministérios e temas.1 A categorização pareceu ter um efeito didático, simplificando o que poderia soar complexo e sem sintonia. Mais do que o efeito didático, buscou-se demonstrar a relação orgânica e de interdependência entre essas iniciativas.

O relatório da Secretaria foi organizado em três chaves principais: dados, missão e pessoas. Começando pelos dados, enfatizou o crescimento numérico dos 3.500 membros em 1863 aos 22 milhões de membros atuais, que se reúnem em mais de 95 mil igrejas e quase 73 mil grupos. Quanto às pessoas, tratou do número atual de missionários e a necessidade de maior envolvimento das Divisões. Quanto à missão, destacou o trabalho dos diferentes ministérios e líderes, entremeados por breves histórias e declarações.

Desafios e respostas

No último quinquênio, foram batizadas anualmente mais de 1,2 milhão de pessoas em média, com o pico de 1.383.427 batismos em 2018. Contudo, assim como o pastor G.T. Ng, o secretário anterior, alertou na última Assembleia, a perda de membros ainda é alarmante. Para cada 100 batismos realizados nos últimos sete anos, 53 pessoas deixaram a igreja.

Questionado por um delegado sobre as causas, o pastor Erton afirmou que é evidente que há algo de errado e que providências devem ser tomadas, seja no nível da Associação Geral, das Divisões ou de qualquer outro. A boa notícia é que três Divisões (a do Pacífico Sul-Asiático, a Sul-Americana e a Interamericana) têm integrados ao seu planejamento programas sérios de resgate de membros afastados. Esses esforços resultaram, somente em 2017, em 277.163 pessoas que retornaram à igreja, segundo o pastor Köhler.

Ainda sobre esse tema, David Trim enfatizou tanto a importância do outreach (alcance externo) quanto ao do inreach (alcance interno). Também destacou o crescimento institucional, que por um lado favorece a um acompanhamento pastoral mais aproximado, mas por outro enseja cuidados para não se transmitir uma sensação de aumento da burocracia. Ou seja, a organização deve subsistir como facilitadora, e não o contrário. Segundo o pastor Köhler, “também não podemos diminuir a ênfase em missão para dar lugar ao discipulado, pois missão é discipulado”, defendeu diante dos delegados.

Algumas regiões do Sul global, especialmente na África Subsaariana e do Pacífico, com destaque às Filipinas, são as que mais têm mostrado crescimento. A igreja na Tanzânia, Uganda e no nordeste do Congo cresceram em uma média de 8 a 12% ao ano. Por sua vez, o norte africano, marcado pelo predomínio do islamismo, se mostra resistente. Da mesma forma, outros países da janela 10/40, marcadamente hindus, budistas e ateístas, assim como o Norte pós-moderno ou pós-cristão, “requerem um comprometimento de longo prazo dos recursos missionários”, segundo Köhler.2

“Missão, missão, missão”

Esse foi o principal ponto de convergência nos relatórios da Secretaria e da Tesouraria mundiais da igreja. Não foi apenas um uso retórico, no nível discursivo, mas apresentações propositivas, com medidas práticas. Para ambas as áreas, a pandemia de Covid-19 representou um imenso impacto em termos de redução de entradas, queda de batismos, o que levou a uma profunda reavaliação de processos, à ampliação digital e a um escrutínio ainda mais rigoroso de aonde os recursos humanos e financeiros devem seguir.

Em sua fala, Paul Douglas propôs uma reprogramação dos critérios de envio de recursos para as missões, priorizando: (1) missões de “contato direto” e criação de novas igrejas; (2) países da janela 10/40; (3) áreas com mais de um milhão de habitantes; (4) grupos pós-modernos ou pós-cristãos; (5) lugares com proporcionalmente pouca presença adventista e (6) investimento em equipamentos dos projetos de “contato direto”.

Segundo o tesoureiro da igreja mundial, diante da grave crise recente (da qual a igreja já se recuperou), a membresia se mostrou fiel. Os dízimos, que caíam desde 2018, subiram significativamente de 2020 para 2021. Em sua visão, “Deus nos confiou tanto a mordomia da missão quanto a mordomia do dinheiro”, e ambas devem contribuir para um só propósito.

Paul Douglas ainda destacou que a queda das moedas frente ao dólar, especialmente do real brasileiro (a moeda de maior impacto no orçamento da Igreja Adventista) reforçou a necessidade de buscar uma solidez financeira em todos os níveis administrativos. O atendimento às prioridades mais críticas do campo missionário e do funcionamento geral da obra não podem ser fragilizadas pelas volubilidades cambiárias e econômicas, ressaltou o tesoureiro.

Em resumo, os líderes Erton Köhler e Paul Douglas deram um tom claro em seus relatórios. Descreveram estrategicamente uma visão missionária do gerenciamento de dados, pessoas e recursos. O foco incondicional na missão (Mt 28:18-20), obviamente ancorado em sua identidade bíblica (Ap 14:6, 7), visa ao avanço saudável da igreja em direção ao futuro e ao sonho maior de preparar um povo para o encontro com o Cristo. Como Douglas destacou, é sobre pregar o evangelho a todas as nações (Mt 24:14).3  

1 Marcos De Benedicto, “Presidente da Associação Geral é Eleito Para Novo Mandato”, Revista Adventista, 6 de junho de 2022, disponível em https://www.revistaadventista.com.br/conferencia-geral-2022/presidente-da-associacao-geral-e-eleito-para-novo-mandato/, acesso em 7 de junho de 2022.

2 Erton Köhler, “Secretariat: Where the heart of mission beats”, Adventist Review. General Conference Session Bulletin, 2, 7 de junho, 2022, p. 20, disponível em https://adventistreview.org/wp-content/uploads/2022/05/Bulletin-2-full-issue-PDF.pdf?_ga=2.186000673.928591132.1654636261-986621111.1654636261, acesso em 7 de junho de 2022.

3 Paul Douglas, “Treasury. Partnering with God: Our mission, His money”, Adventist Review. General Conference Session Bulletin, 2, 7 de junho, 2022, p. 28, disponível em https://adventistreview.org/wp-content/uploads/2022/05/Bulletin-2-full-issue-PDF.pdf?_ga=2.186000673.928591132.1654636261-986621111.1654636261, acesso em 7 de junho de 2022.

No coração de Saint Louis reluz o Gateway Arch, o “Arco do Portal”. É o monumento mais alto dos Estados Unidos. Suas mais de 43 mil toneladas de aço e concreto fincados à beira do rio Mississipi alcançam 192 metros de altura, o equivalente a um prédio de 63 andares. Dentro dessa megaestrutura viajam carros elétricos em dois trilhos, levando até cinco pessoas cada um. Do topo se enxerga até 48 km de distância. O monumento, que figura como ícone gráfico da presente Assembleia da Associação Geral, tem uma profunda relevância histórica e cultural.

O parque nacional que abriga o arco foi fundado em 1935 em homenagem a Thomas Jefferson, que comprou o estado de Louisiana em 1803. Ele sonhava com um país transcontinental. Assim, o gigantesco arco de aço representa um olhar para o Oeste, para as novas conquistas, a busca por um futuro promissor. 

Entretanto, o parque envolve algo mais: o Old Courthouse (o Antigo Tribunal), que se tornou palco da história dos direitos civis. Ali, em 1846, o afro-americano Dred Scott moveu um processo legal para obter liberdade para si e sua esposa Harriet. Naquele tempo, o salário de seus serviços a uma pessoa eram entregues à sua “dona”, Irene Emerson, a qual literalmente os alugava. Após um moroso processo, o tribunal negou-lhes o pedido de liberdade. Isso repercutiu e se tornou um dos elementos decisivos para a Guerra Civil Americana. O mesmo antigo tribunal negou à Sra. Virginia Minor o direito de votar, o que também acabou gerando um movimento em torno do tema.1

De modo belo, o arco e o antigo tribunal mesclam memórias tão contraditórias quanto complementares. Traduzem uma imponência dissonante e admirável de nação e nacionalidade, civilização e direitos, de glórias e dramas. Ao mesmo tempo, o desenho metálico futurista do arco nos convida a refletir sobre um novo amanhã. 

O arco pode ser uma metáfora do que a Assembleia representa. Nesta reunião mundial celebramos as bênçãos dos últimos anos. Observamos a pujança institucional e a diversidade humana de um movimento escatológico que cruza os céus (Ap 14:6), chamando a atenção do mundo para a breve volta de Jesus. 

Nesses encontros também somos lembrados de nossa identidade comum e da herança preciosa que os pioneiros nos legaram. Na Assembleia também nos lançamos em um empreendimento ousado, no qual cada voto ajuda a pincelar o futuro. 

Portanto, sete anos depois de San Antonio, não podemos ser meros espectadores de um evento festivo, embora desfrutemos dele. Após o tsunami mortal da Covid, que adiou duas vezes este encontro, não viemos para assisti-lo passivamente. Diante do cenário de guerra e incertezas, não viemos para fazer turismo, embora não haja mal algum nisso!

Acima de tudo, estamos aqui para clamar por transformação e um espírito de serviço. Ainda há bilhões de pessoas a serem alcançadas. Em todas as terras ainda há barreiras de riqueza e pobreza, de ceticismo e hostilidade, de acomodação cultural e metástase teológica, de comunidades minguantes e ideais erodidos. Catástrofes humanitárias gritam por ajuda. 

Outro ousado arco de fé e esperança se ergue em Saint Louis. Vemos um grande “Oeste” diante de nós e um Justo Juiz acima, que apela aos corações: “A quem enviarei, e quem há de ir por Nós?”. Seja a nossa resposta: “Eis-me aqui, envia-me a mim” (Is 6:8).

1 Ver “The Dred Scott Case” e “Virginia Minor and Women's Right to Vote”, em National Park Service, https://www.nps.gov/jeff/index.htm.